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Que bagunça! As rupturas na arte e na cultura

by Redação
abril 4, 2025
in Saúde
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As Mulheres de Argel (1955), de Pablo Picasso - Cubismo - Imagem: Divulgação
As Mulheres de Argel (1955), de Pablo Picasso - Cubismo - Imagem: Divulgação
As Mulheres de Argel (1955), de Pablo Picasso – Cubismo – Imagem: Divulgação

Marlene Polito Publicado em 14/01/2025, às 11:25

Que bagunça é essa?

É natural relacionarmos a palavra “bagunça” a algo desordenado ou caótico. No entanto, quando falamos em arte e cultura, “bagunça” pode significar, sobretudo, ruptura de padrões e transformação criativa.

Quase sempre, as inovações — aquelas que parecem desarrumar tudo — surgem de um desejo profundo de experimentar o novo, testar limites e questionar o que antes era tido como “certo” ou “adequado”. Afinal, cada época traz consigo suas convenções, mas também seus rebeldes, prontos para subverter o status quo.

A “bagunça” em uma breve linha no tempo

Já na Antiguidade, os gregos passaram de figuras estáticas (Kouros, Koré) a esculturas mais realistas e dinâmicas, sobretudo no período clássico.

Posteriormente, no Helenismo (323 a.C. até aproximadamente 31 a.C.), houve outra quebra: a serenidade idealizada deu lugar a expressões dramáticas. Veja o célebre grupo de Laocoonte.

Laocoonte e seus filhos

Na Idade Média, ainda que marcada pela forte influência religiosa, não faltaram “experimentos” ousados: da transição entre o estilo românico e o gótico — com a surpreendente verticalidade e luminosidade das catedrais — até iluminuras elaboradas e um teatro que, por vezes, escapava ao rígido controle eclesiástico.

Se avançarmos para o Renascimento, encontramos outro ponto de virada. Passamos de um período em que tudo era voltado para a divindade, para uma época que redescobriu o ser humano e a perspectiva. Mais adiante, o Barroco injetou dramaticidade e contrastes exuberantes, bagunçando a harmonia renascentista.

A festa de São Nicolau (1665-1668), de Jan Steen

No século XIX, movimentos como o Romantismo e depois o Realismo trouxeram novos focos temáticos, contestando o que antes se considerava sublime ou merecedor de representação.

Já a virada para o século XX é praticamente um desfile de vanguardas: Impressionismo, Cubismo, Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo — cada um desses ismos jogou luz sobre aspectos diferentes, provocando espanto, indignação ou fascínio no público e abrindo novas portas para a expressão artística.

A Persistência da Memória (1931), de Salvador Dalí – Surrealismo

No Brasil, o Modernismo brasileiro teve essa “chacoalhada” — especialmente na sua fase inicial, com a Semana de Arte Moderna de 1922. Apesar de certas contestações, essa “sacudida” modernista não foi só estética, mas também ideológica — questionou valores arraigados, trouxe reflexões sobre identidade e abriu caminho para a pluralidade artística no Brasil.

Abaporu, (1928), de Tarsila do Amaral – Modernismo

Chegando à Contemporaneidade, a “bagunça” parece ainda maior e mais rápida. As fronteiras entre artes visuais, performance, música e tecnologia se misturam.

O que dizer das instalações interativas, da videoarte ou dos memes na internet que viralizam em instantes? A cultura pop asiática (K-pop), a febre do remix e a criação colaborativa online questionam, inclusive, a ideia de autor e de obra acabada.

Sunflower Seeds (2010), de Ai Weiwei; instalação contemporânea

Consiste em mais de 100 milhões de pequenas “sementes” de girassol feitas em porcelana, todas moldadas e pintadas à mão por centenas de artesãos na cidade de Jingdezhen, famosa por sua tradição milenar de produção de porcelana na China. É uma reflexão sobre o trabalho coletivo, a massificação X trabalho artesanal, a ideia de “Made in China”. Também carrega conotações políticas: durante o regime de Mao Tsé-Tung, Mao era representado como o sol e o povo como girassóis.  

Tudo está em constante mutação e, aos olhos de muitos, isso é uma grande desordem e confusão. Mas é justamente nesse imbróglio que surgem as ideias que moldam o futuro. 

Vamos pensar sem bagunça?  

A história cultural é marcada por ciclos de aparente estabilidade, sacudidos por instantes de inovação que, a princípio, parecem ser apenas caos aleatório. 

Ao longo dos séculos, artistas e pensadores ousaram testar limites e romper padrões — e, nesse processo, influenciaram profundamente os rumos da humanidade.  

Se hoje nos surpreendemos com expressões inusitadas, é bom lembrar que as grandes mudanças do passado também foram, um dia, encaradas como “desordem”. Afinal, bagunçar estruturas é uma forma de abrir caminhos. E, ao que tudo indica, há sempre um próximo movimento pronto para revirar tudo de novo.  

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