O investidor Silvio Tini de Araújo, fundador da Bonsucex Holding, passou a concentrar as atenções do mercado de capitais ao se tornar o maior acionista individual do Grupo Pão de Açúcar (GPA). A operação, no entanto, é apenas o capítulo mais recente de uma longa história de movimentações societárias que passa também pela mineradora Buritirama, negócio que Tini efetivou a venda para o próprio filho, João José Araújo, em 2018.
Por meio da Bonsucex, Tini reuniu 25,795% das ações ordinárias do GPA, ultrapassando a participação da tradicional família Coelho Diniz, estimada em cerca de 24,9%, e assumindo a posição de maior acionista individual da companhia fundada por Valentim dos Santos Diniz. A movimentação só foi viabilizada após a assembleia de acionistas aprovar a retirada da cláusula de poison pill, que obrigava a realização de uma oferta pública sempre que um investidor superasse 25% do capital.
Um grupo em reestruturação
A ampliação de participação ocorre em meio a um momento delicado para o GPA, que negocia uma recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 4,5 bilhões em dívidas. As ações da varejista sofreram forte desvalorização ao longo do ano, sendo negociadas recentemente perto de R$ 2,80 — nível que parte do mercado enxerga como oportunidade para quem aposta em uma recuperação no médio e longo prazo.
Décadas de participações relevantes
Tini, hoje com mais de 80 anos, fundou a Bonsucex em 1982 e desde então construiu uma carteira robusta de participações acionárias em companhias como Alpargatas, Bombril, Banco Pan, Gerdau e IRB Brasil Resseguros. O investidor soma um patrimônio estimado em R$ 4 bilhões e é conhecido no mercado por identificar empresas com marcas fortes e ativos relevantes, mas que atravessam momentos de dificuldade — um padrão que o mercado volta a enxergar agora na aposta pelo GPA.
A venda da Buritirama ao filho
Antes de se tornar protagonista no GPA, Silvio Tini já havia protagonizado outra movimentação relevante em seus negócios: a venda da Mineração Buritirama para seu filho, João José Oliveira de Araújo, efetivada em 2018. Foi justamente sob o comando de João, à frente da companhia desde 2015, que a Buritirama viveu sua maior transformação.
Quando João assumiu a gestão, a mineradora enfrentava um passivo próximo de R$ 350 milhões. Nos três anos seguintes, o faturamento saltou de cerca de R$ 80 milhões para uma faixa entre R$ 750 milhões e R$ 850 milhões, impulsionado pela operação de manganês em Marabá, no Pará — hoje uma das maiores minas a céu aberto da América Latina.
Sob controle de João e do grupo Buritipar, a companhia seguiu se expandindo para outros segmentos, como cobre, potássio, grãos e logística, e chegou a fechar, em 2021, um contrato de longo prazo com uma estatal chinesa, com um pré-pagamento de US$ 400 milhões — reflexo direto do salto de relevância da operação depois da saída de Tini do comando direto do negócio.
Dois negócios, duas lógicas
Ainda que as trajetórias de pai e filho sejam frequentemente comparadas, mineração e varejo seguem dinâmicas distintas. Enquanto uma mineradora exportadora se beneficia de câmbio favorável, alta de commodities e demanda internacional, uma rede varejista como o GPA depende do consumo das famílias brasileiras, da renda, dos juros e da eficiência operacional das lojas — fatores que tendem a produzir uma recuperação mais lenta e gradual.
Um histórico que também inclui controvérsias
A trajetória de Tini no mercado de capitais não é isenta de episódios controversos. Em 2024, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) o inabilitou por cinco anos para ocupar cargos de administração em companhias abertas, em processo relacionado a negociações envolvendo ações da Alpargatas. A decisão não impede novas participações acionárias, mas limita sua atuação executiva direta durante o período da penalidade.
Outro capítulo que segue em aberto é a disputa judicial entre Silvio Tini e João Araújo, hoje controlador de 100% da Buritirama, relacionada a negócios e ativos da família — evidência de que, apesar do parentesco e das comparações constantes, pai e filho hoje conduzem negócios e interesses independentes.
O que vem pela frente
Com a nova posição acionária no GPA, Silvio Tini passa a ter influência relevante sobre o futuro da companhia, ainda que a gestão cotidiana continue submetida ao conselho e à governança corporativa. Resta saber se a Bonsucex manterá uma posição estritamente financeira ou se buscará participação mais ativa na reconstrução do grupo — um movimento que o mercado deve acompanhar de perto nos próximos meses.
Matéria produzida a partir de informações de mercado.





