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O varejo brasileiro na perspectiva de João Araújo: o desafio não é mais crescer, é sobreviver crescendo certo

Responsável pela estratégia de expansão da mineradora Buritirama, João José Araújo é controlador e também conselheiro da Salus Optima

by Marina Roveda
agosto 27, 2026
in Economia
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O varejo brasileiro na perspectiva de João Araújo: o desafio não é mais crescer, é sobreviver crescendo certo

Com juros de 64% ao ano para o consumidor e 82% das famílias endividadas, 2026 expõe os limites do modelo antigo do varejo brasileiro. Para João José Oliveira de Araújo, conhecido como João Araújo (no detalhe), o que separa quem sofre de quem atravessa não é tamanho, é disciplina de capital. (Foto: Divulgação/Grupo Buritipar)

Na madrugada de domingo, 16 de agosto de 2026, às 2h24, o Grupo Casas Bahia divulgou o balanço do segundo trimestre. Horas depois, no mesmo domingo, protocolou pedido de recuperação judicial no Foro Central Cível de São Paulo. O número que abriu o documento: prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no trimestre, dezoito vezes o resultado negativo de R$ 555 milhões apurado um ano antes.

O pedido abrange a controladora e nove subsidiárias, com R$ 17,3 bilhões em dívidas reconhecidas, das quais 94,8% são créditos quirografários. Três dias antes, em 13 e 14 de agosto, a companhia havia fechado 298 lojas — 28,7% de toda a rede. A ação BHIA3 caiu 33,33% no dia do anúncio, a R$ 0,44.

É importante ler o balanço com atenção antes de tirar conclusões, porque ele conta duas histórias. Dos R$ 10,1 bilhões de prejuízo, R$ 9,1 bilhões são efeitos contábeis não recorrentes — baixas de ativos, contratos onerosos, reestruturação, baixa de crédito tributário diferido. O prejuízo ajustado do trimestre foi de R$ 978 milhões, e o EBITDA ajustado ficou positivo em R$ 518 milhões, com queda de 9,4%. O que quebrou a empresa não foi um trimestre ruim: foi a estrutura de capital. O patrimônio líquido está negativo em R$ 8,1 bilhões.

Não é o caso de uma empresa

A Americanas, que protocolou em março o pedido de encerramento da própria recuperação judicial — ainda não homologado —, fechou 166 lojas nos últimos doze meses e restou com 1.448 pontos ao fim de abril. Vendeu ativos: a Uni.Co, dona das marcas Imaginarium, Puket e MinD, saiu por R$ 152,9 milhões para a BandUP! em operação concluída em 6 de julho; a Natural da Terra, por R$ 69,3 milhões. No segundo trimestre, prejuízo de R$ 274 milhões, quase o triplo do mesmo período de 2025.

E, atrás das duas manchetes, um número que quase ninguém publica: há 986 varejistas em recuperação judicial no Brasil, alta de 20,4% em doze meses, além de 686 falências, segundo o Monitor RGF-BIZDOC com base em dados da Receita Federal.

Para o empresário João José de Oliveira de Araújo, conhecido como João Araújo, controlador do Grupo Buritipar e conselheiro da Salus Optima, o erro é ler tudo isso como “crise do varejo” de forma genérica.

“As empresas com marca forte e menos dependência de crediário próprio — pense numa Vulcabras, numa Track&Field, numa Vivara — estão navegando esse mesmo cenário de um jeito completamente diferente. O que separa quem sofre de quem atravessa não é tamanho, é disciplina de capital.”

Os números dão sustentação ao argumento. A Vulcabras fechou o segundo trimestre com receita líquida de R$ 994,8 milhões, alta de 11,2%, no vigésimo quarto trimestre consecutivo de crescimento, com EBITDA recorrente de R$ 208,6 milhões e margem de 21% — puxada por um mercado interno que avançou 13,3%. A Track&Field entregou receita consolidada de R$ 279,7 milhões, alta de 15,5%, com EBITDA ajustado de R$ 65,6 milhões, alta de 15,9%, e margem em expansão para 23,5%, movida pelo modelo de franquias, cujos royalties cresceram 24,2%; o Banco Safra apontou a companhia como destaque do trimestre no varejo. A Vivara somou R$ 833,1 milhões de receita, alta de 9,5%, com vendas em mesmas lojas subindo 6,5% na marca principal e 4,3% na Life, e reduziu a dívida líquida em 56,9%, para R$ 140,9 milhões.

Nenhuma das três depende de financiar o próprio cliente para vender. É a diferença estrutural.

A conta que o consumidor não fecha

O pano de fundo macroeconômico é implacável. Com a Selic em 14% ao ano — após o quarto corte consecutivo, de 0,25 ponto, em 5 de agosto —, a taxa média de juros para pessoa física no crédito livre chegou a 64% ao ano em junho, alta de 4,6 pontos percentuais em doze meses, segundo o Banco Central. O rotativo do cartão está em 442,4% ao ano; a média do cartão bateu recorde em 97,4%; o crédito pessoal não consignado, em 149,5%.

A inadimplência acompanhou. A carteira total do Sistema Financeiro Nacional registra 4,7% de atraso, recorde histórico, com 7,6% entre pessoas físicas no crédito livre. O Serasa contabiliza 81,7 milhões de brasileiros negativados e 332 milhões de dívidas em aberto, com ticket médio de R$ 6.598. A pesquisa PEIC da CNC de julho aponta 82% das famílias endividadas — sexto mês consecutivo em nível recorde da série —, com cartão de crédito presente em mais de 85% dos casos. Entre famílias que ganham até três salários mínimos, 84,9% estão endividadas e 38,5%, inadimplentes.

O efeito aparece no caixa das lojas. A Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE de junho, divulgada em 13 de agosto, mostrou alta de 0,5% no varejo restrito no mês e 1,9% no acumulado do semestre — mas queda de 0,4% no segundo trimestre contra o primeiro, a primeira retração trimestral depois de três altas seguidas. No varejo ampliado, recuo de 1% no mês e de 0,7% no trimestre. Tecidos, vestuário e calçados caíram 2,6%; material de construção, 3,5%; veículos, 1,5%.

A projeção econométrica do IBEVAR-FIA Business School, divulgada em abril, já antecipava o quadro, com retração de 1,59% no varejo ampliado do segundo trimestre e 22 dos 32 segmentos de serviços analisados em queda. “O segundo trimestre de 2026 deve impor desafios relevantes às empresas, que precisarão competir por uma parcela menor da renda disponível dos consumidores”, escreveu Claudio Felisoni de Angelo, presidente do instituto.

O CERCO EM NÚMEROS
R$ 17,3 bi Dívidas reconhecidas no pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia, em 16/08/2026
298 Lojas fechadas pela varejista em 13 e 14 de agosto — 28,7% da rede
986 Varejistas em recuperação judicial no Brasil, alta de 20,4% em doze meses
64% a.a. Taxa média de juros para pessoa física no crédito livre em junho (Banco Central)
82% Famílias endividadas em julho, recorde da série histórica da CNC
81,7 mi Brasileiros negativados, com dívida média de R$ 6.598 (Serasa)
30 a 45 dias Float fiscal que o split payment da reforma tributária elimina do capital de giro

E ainda vem a reforma tributária

Some a esse quadro uma mudança estrutural que o setor ainda está aprendendo a precificar. Desde 3 de agosto de 2026, empresas do regime regular são obrigadas a preencher os campos de IBS e CBS nos documentos fiscais eletrônicos, sob pena de rejeição automática. A alíquota-teste do ano é de apenas 1% — 0,9% de CBS e 0,1% de IBS — e a apuração é informativa. O impacto real não está na alíquota: está no split payment.

Hoje o varejo opera com um float fiscal de 30 a 45 dias entre a venda e o recolhimento dos tributos. É capital de giro gratuito, e o split payment o elimina ao reter o tributo no momento da liquidação do pagamento. Em análise publicada em maio, a Peers Consulting calculou que, numa venda de R$ 1.000, a empresa passaria a receber entre R$ 735 e R$ 760 — impacto imediato de cerca de 26% no caixa. O segmento mais vulnerável é o de supermercados e atacarejo, que trabalha com margens líquidas de 1% a 3%.

Para quem já financia estoque com dívida cara, a mudança não é um ajuste contábil. É uma redução permanente do colchão.

O reflexo automático que parou de funcionar

A leitura estratégica, segundo João Araújo, é simples de enunciar e difícil de executar.

“O reflexo automático de qualquer varejista sempre foi abrir mais uma loja. Em 2026, a pergunta mudou: antes de abrir a próxima, você já extraiu toda a eficiência possível da operação que já tem? Estoque, logística, dado de cliente, tecnologia de gestão… quem não fizer essa lição de casa primeiro será a bola da vez, sem perceber.”

Não é um discurso contra crescer. É contra crescer sem essa base pronta — e a diferença entre as duas coisas ficou muito mais cara em 2026 do que era em qualquer ano da década anterior.

Vale registrar que o horizonte imediato não é uniformemente sombrio. O relatório seguinte do IBEVAR-FIA, divulgado em 18 de agosto, projeta expansão moderada até outubro, com altas de 2,95% em agosto, 3% em setembro e 2,27% em outubro no varejo ampliado. Mas a recuperação de fluxo não resolve estrutura de capital. As empresas que quebraram em 2026 não quebraram por falta de venda — a receita líquida da Casas Bahia no trimestre até subiu 1,6%. Quebraram por dívida, margem e ciclo de caixa.

É por isso que a pergunta do empresário incomoda. Ela desloca o problema do topo da demonstração de resultado, onde todo varejista gosta de olhar, para as linhas de baixo e para o balanço, onde o ano de 2026 está sendo efetivamente decidido.

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