Um número resume 2026 melhor do que qualquer outro: US$ 2,8 trilhões. É o valor movimentado por fusões e aquisições no mundo durante o primeiro semestre, alta de 48% sobre o mesmo período de 2025 e o maior semestre da história do mercado, segundo levantamento da LSEG Data & Analytics divulgado pela Reuters em 1º de julho. Só que existe um segundo número, bem menos comentado, que muda inteiramente o sentido do primeiro: foram cerca de 24 mil transações, 9% a menos que um ano atrás.
Menos gente comprando. Muito mais dinheiro por compra.
Para o empresário João José de Oliveira de Araújo, conhecido como João Araújo, controlador do Grupo Buritipar e conselheiro da Salus Optima, é a segunda leitura que importa. “Isso não é uma festa de dinheiro fácil. É o oposto, o mercado está caro justamente porque ficou seletivo. Quando o comprador só quer um tipo de ativo, o preço desse ativo específico sobe muito mais do que a média do mercado sugere”, afirma.
O recorde pertence a pouquíssimos
A estatística que sustenta a tese do empresário não é o total, é a distribuição. No primeiro semestre houve 47 megatransações acima de US$ 10 bilhões, somando mais de US$ 1,3 trilhão — praticamente metade de todo o volume global, de acordo com a LSEG. Considerando o acumulado de janeiro a julho, são 48 megadeals e US$ 1,29 trilhão, recorde absoluto para o período.
A PwC foi além e fez a conta que realmente expõe o mecanismo. Usando um corte de US$ 5 bilhões, a consultoria calculou que as megatransações responderam por 48% do valor global em 2026, contra 39% em 2025 e apenas 26% em 2024. E então retirou os megadeals da amostra. O que sobra: o valor das demais transações caiu 4%.
Ou seja, não há um boom de fusões e aquisições. Há um boom em uma faixa muito estreita do mercado, e uma estagnação discreta em todo o resto. É exatamente o desenho que João Araújo descreve.
Os nomes por trás dos números ajudam a entender o filtro. Em fevereiro, a Paramount Skydance anunciou a compra da Warner Bros. Discovery em uma operação de US$ 110 bilhões, financiada com US$ 47 bilhões em capital próprio e US$ 54 bilhões em dívida. Em maio, a NextEra Energy comprou a Dominion Energy por US$ 66,8 bilhões, criando a maior elétrica dos Estados Unidos — e o racional declarado foi a demanda de energia dos data centers de inteligência artificial. Em junho, a SpaceX pagou cerca de US$ 60 bilhões pela Cursor, da Anysphere, na maior aquisição de uma empresa de IA já registrada.
São três setores diferentes com uma característica comum: em todos, o comprador não estava atrás de escala genérica. Estava atrás de uma posição específica que não se constrói do zero em prazo razoável.
Onde o prêmio está mais visível
O caso mais evidente é tecnologia ligada a inteligência artificial. Foram 266 transações de M&A em IA apenas no primeiro trimestre de 2026, alta de 90% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo o relatório State of AI Q1’26 da CB Insights. E o preço acompanhou: levantamentos da butique de assessoria Solganick apontam mediana de 11,5 vezes a receita nas aquisições de software nativo em IA, contra 3,8 vezes no SaaS de geração anterior. Laboratórios de modelos de fronteira negociam em faixas de 15 a 30 vezes a receita anualizada.
“O mercado está dizendo, com bastante clareza, o que considera raro. Ativo com dado proprietário, com posição defensável, com clientela difícil de replicar, isso não perdeu valor, ganhou. O resto é que ficou mais barato relativamente”, completa João Araújo.
Vale registrar o contraponto, porque ele existe e é relevante. A própria PwC observa que a inteligência artificial vem perdendo espaço como justificativa declarada nas grandes operações: cerca de 17% das cem maiores transações corporativas do primeiro semestre citaram IA como racional estratégico, contra aproximadamente um terço em 2025. A leitura combinada dos dois movimentos é instrutiva — explodiu o número de negócios de IA de porte médio, enquanto a IA como narrativa de megadeal esfriou. O prêmio migrou do discurso para o ativo.
| O PARADOXO EM NÚMEROS | |
| US$ 2,8 tri | Valor global de M&A no 1º semestre de 2026, alta de 48% (LSEG/Reuters) |
| –9% | Queda no número de transações no mesmo período: cerca de 24 mil negócios |
| 47 | Megatransações acima de US$ 10 bilhões no semestre, somando US$ 1,3 trilhão |
| –4% | Variação do valor das transações quando se excluem os megadeals (PwC) |
| +90% | Alta no número de negócios de M&A em inteligência artificial no 1º trimestre (CB Insights) |
| 11,5x | Mediana de EV/Receita em software nativo de IA, contra 3,8x no SaaS tradicional (Solganick) |
Não é dinheiro barato — e isso muda tudo
Há uma explicação preguiçosa circulando para o recorde de 2026: juros em queda destravaram o mercado. Os dados não sustentam. O Federal Reserve manteve a faixa dos fed funds em 3,50% a 3,75% na reunião de 17 de junho, por decisão unânime, e ali permanece. Na Europa, o Banco Central Europeu fez o movimento oposto: em 11 de junho elevou suas três taxas em 0,25 ponto percentual, a primeira alta em três anos, diante das pressões inflacionárias geradas pela guerra no Oriente Médio. Mesmo assim, o M&A europeu cresceu 78% no acumulado até julho, o maior patamar em cerca de duas décadas.
Tampouco é o private equity que puxa o recorde. O valor das transações de fundos caiu 14% no primeiro trimestre, o custo de captação de dívida para o setor está na faixa de 8% a 9%, e as distribuições aos cotistas equivalem a 14% do patrimônio líquido — mínima de quatro anos e patamar não visto desde a crise de 2008 e 2009, segundo o Global Private Equity Report 2026 da Bain & Company. Há 32 mil empresas paradas em carteiras de fundos, avaliadas em US$ 3,8 trilhões, esperando uma porta de saída.
Quem está comprando, portanto, é o comprador estratégico, com balanço próprio e acesso a dívida corporativa de grau de investimento — mercado que emitiu US$ 3,4 trilhões no semestre, alta de 10%. É um perfil de comprador que não precisa de alavancagem barata para fechar negócio, mas que, justamente por isso, é muito mais exigente sobre o que compra.
O Brasil na mesma curva
O mercado brasileiro reproduziu o padrão global com fidelidade quase didática. Segundo a TTR Data, foram 593 transações no primeiro semestre, queda de 35,3% sobre 2025, movimentando R$ 166,8 bilhões, alta de 3,4%. A KPMG, que usa critério de inclusão diferente, chegou a 610 operações e R$ 195 bilhões — números distintos, mesma dinâmica: um terço a menos de negócios, valor maior.
A composição também conversa com a tese. Por número de transações, o setor de Internet, Software e Serviços de TI lidera isolado, com 104 operações. Por valor, quem manda são mineração, energia e recursos ligados à transição energética e à infraestrutura — a Alcoa comprou a South32 por R$ 28,5 bilhões, a USA Rare Earth adquiriu a Serra Verde por R$ 13,9 bilhões. Private equity fez apenas 41 operações pela contagem da TTR, mas com alta de 105% em valor.
Em outras palavras: no Brasil, como lá fora, o capital foi para ativos escassos, de difícil replicação, com posição física ou tecnológica defensável. Não foi para volume.
A pergunta que o empresário deixa
Para quem está construindo ou avaliando um negócio nesse ambiente, a lição estratégica não é “hora de vender” nem “hora de comprar”. É entender de qual lado da régua o próprio ativo está — e essa é uma pergunta que se responde muito antes da mesa de negociação.
“Múltiplo alto, hoje, não é sorte de timing. É prêmio por ser difícil de copiar. Quem constrói pensando nisso desde o início está numa conversa completamente diferente na hora de negociar.”
É uma formulação incômoda para boa parte do mercado, porque desloca a discussão do momento para a estrutura. Em um ano em que metade do dinheiro do mundo foi para 47 negócios, o que separa o ativo disputado do ativo ignorado deixou de ser conjuntura e virou projeto.







