Custo do crédito
O cenário de endividamento recorde registrado no Brasil em abril de 2026 é acompanhado por um custo de crédito elevado. As diferentes modalidades de taxas de juros revelam a profundidade da pressão sobre o orçamento doméstico.
De acordo com os dados do Banco Central, o cartão de crédito rotativo consolida-se como a linha mais dura do mercado, com taxas que podem atingir entre 428% e 440,5% ao ano. O cartão é o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias e compromete, sozinho, 54% da renda familiar.
Segundo a economista Catarina Carneiro, da CNC, o peso do cartão de crédito acaba reduzindo diretamente a capacidade de consumo das famílias.
— Essa grande parcela de dívidas acumulada no cartão, a modalidade com a maior taxa de juros do mercado, freia a intenção de consumo para os próximos meses, fazendo com que as famílias analisem com cautela suas condições de arcar com os pagamentos futuros e consumam menos do que fariam com crédito menos custoso — explica.
Outras modalidades de crédito voltadas ao consumo também apresentam patamares alarmantes: o cartão parcelado registra juros de 181,2% ao ano, enquanto o cheque especial e o crédito pessoal não consignado mantêm-se em níveis de aproximadamente 130% e 106,6%, respectivamente. Mesmo a taxa de crédito livre médio para pessoas físicas, que serve como um termômetro geral para o consumidor, situa-se no patamar de 59,4% ao ano.
Para o economista Rodrigo Saraiva Marinho, CEO do Instituto Livre Mercado — organização que acompanha debates sobre economia, crédito e ambiente de negócios —, o problema dos juros elevados começa no próprio desequilíbrio das contas públicas brasileiras.
— Não há como falar sobre esse tema sem falar no nível de endividamento do próprio Estado brasileiro. O Estado é muito endividado e isso faz com que os juros sejam muito altos. O governo não consegue se sustentar com aquilo que arrecada de tributos e precisa de empréstimos para complementar seus gastos – afirma.
Maria Lúcia Fattorelli, coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, os juros e a dívida pública se alimentam mutuamente, tornando a solução do problema cada vez mais inexequível.
— Os juros altos praticados historicamente no país constituem o principal fator de crescimento da dívida pública. O volume acumulado de juros nominais da dívida supera o estoque da dívida liquida do setor público, ou seja, temos uma dívida de juros sobre juros. O Tribunal de Contas da União já demonstrou em audiência pública ao Senado Federal que nenhuma despesa orçamentária classificada como investimentos foi custeada com recursos advindos da venda de títulos da dívida pública. Isso significa que a dívida pública tem servido apenas para financiar os gastos financeiros com a própria divida, principalmente os juros exorbitantes.
Essa estrutura de juros é sustentada por fatores macroeconômicos persistentes, como o endividamento do país e o valor comparativo da moeda com o dólar, e pela a taxa Selic (taxa básica definida pelo Banco Central). Para Marcos Melo, professor do IBMEC Brasília e mestre em finanças, a taxa básica de juros é hoje um dos principais fatores por trás do avanço do endividamento no país.
— A taxa básica Selic no Brasil é de 14,5% ao ano, uma taxa muito alta. Ela é uma referência para todas as outras taxas de juros no Brasil. Quando ela está muito elevada, os bancos passam a emprestar a taxas ainda maiores, o que prejudica diretamente as famílias e empresas.
A referência da Selic eleva o custo do crédito de forma generalizada e coloca o Brasil com a segunda maior taxa real de juros do mundo (9,3%), atrás apenas da Rússia.





