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O que trava as patentes no Brasil? — Senado Notícias

by Redação
junho 19, 2026
in Política
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O que trava as patentes no Brasil? — Senado Notícias




Os efeitos das patentes podem ser observados em diferentes áreas da economia, mas ganham destaque especial na indústria farmacêutica. Isso porque a proteção concedida a medicamentos inovadores costuma envolver temas de grande interesse público, como investimentos em pesquisa, acesso a tratamentos e sustentabilidade dos sistemas de saúde.

Para entidades ligadas à inovação, a proteção patentária é um instrumento essencial para garantir segurança aos investimentos realizados pelas empresas. O desenvolvimento de um novo medicamento pode levar anos de pesquisa e exigir elevados recursos financeiros, o que torna a exclusividade temporária um dos mecanismos para viabilizar esses investimentos.

Thiago Falda

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

“

Menos de 5% de todas as pesquisas iniciadas se transformam em tecnologias viáveis e tratamentos concretos. Antes de chegar aos pacientes, uma nova terapia passa por anos, por vezes décadas, de pesquisa, testes laboratoriais, estudos clínicos e avaliações regulatórias. Oferecendo proteção temporária para a inovação, o sistema de patentes cria condições para que esses investimentos sejam realizados, contribuindo para o avanço de pesquisas em novos medicamentos, diagnósticos e tecnologias voltadas à saúde.

Thiago Falda

Presidente-executivo da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI) e porta-voz do Movimento Brasil pela Inovação (MBI)

Por outro lado, parte da indústria farmacêutica nacional argumenta que o sistema deve evitar mecanismos que prolonguem excessivamente a exclusividade comercial dos produtos. Para esse setor, a preocupação não está na existência das patentes, mas em medidas que possam retardar a entrada de medicamentos genéricos, similares e biossimilares no mercado.

Reginaldo Arcuri

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

“

A proteção patentária pode dificultar o acesso a medicamentos quando deixa de funcionar como incentivo legítimo à inovação e passa a prolongar exclusividades comerciais de forma excessiva. Nessas situações, a ausência de concorrência tende a manter preços mais elevados por mais tempo, com impacto ainda mais sensível em medicamentos de alto custo, de uso contínuo ou essenciais para políticas públicas de saúde.

Reginaldo Arcuri

Presidente executivo do Grupo FarmaBrasil

Genéricos

Os medicamentos genéricos estão no centro do debate sobre patentes. Para Reginaldo Arcuri, a entrada desses produtos após o término da exclusividade amplia a concorrência e reduz os custos dos tratamentos.

— A entrada de genéricos provoca redução imediata e expressiva dos preços. Para o sistema público, isso significa que o mesmo orçamento passa a cobrir mais pacientes ou a ser realocado para outras necessidades. Para o setor privado e para os consumidores, significa acesso a tratamentos que antes eram financeiramente inviáveis.

Já Thiago Falda aponta que os genéricos só passam a existir após o desenvolvimento de uma tecnologia inovadora, processo que demanda anos de pesquisa e investimentos elevados.

— O sistema de patentes foi concebido para equilibrar inovação e acesso. A proteção é sempre temporária e, após seu término, a tecnologia passa a ser de domínio público, permitindo que outras empresas produzam versões equivalentes, como os medicamentos genéricos, ampliando a concorrência e contribuindo para a expansão do acesso da população aos tratamentos. Portanto, para que exista um novo medicamento genérico é preciso que antes exista uma nova tecnologia, uma inovação.

Embora partam de perspectivas diferentes, os representantes das duas entidades reconhecem a importância dos genéricos para ampliar o acesso aos tratamentos. A divergência está no momento em que essa concorrência deve ocorrer: enquanto Arcuri enfatiza os ganhos gerados pela entrada dos concorrentes após o fim da exclusividade, Falda defende que o período de proteção seja suficiente para garantir retorno aos investimentos realizados em pesquisa e desenvolvimento.

Atrasos

Outro ponto que divide especialistas e representantes do setor produtivo envolve a possibilidade de compensar atrasos na análise dos pedidos de patente. O tema ganhou destaque após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2021, que derrubou o mecanismo que permitia a extensão automática do prazo de vigência das patentes em determinadas situações.

Para Thiago Falda, o desafio é evitar que inventores e empresas sejam prejudicados pela demora do próprio Estado na concessão dos registros. A entidade defende a adoção de mecanismos de compensação para atrasos excessivos causados pelo poder público.

— O sistema brasileiro de patentes é essencial para a proteção da inovação, mas ainda enfrenta desafios importantes quando analisamos sua capacidade de oferecer previsibilidade e segurança para investimentos de longo prazo. Um primeiro passo seria aprovar no Brasil um mecanismo chamado Patent Term Adjustment (PTA), que corrige desequilíbrios causados por atrasos do próprio Estado na análise de patentes.

Reginaldo Arcuri, por sua vez, avalia que o caminho mais adequado é fortalecer a estrutura do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), sem ampliar períodos de exclusividade. Para ele, a decisão do STF trouxe maior previsibilidade ao sistema e evitou prazos de proteção superiores aos praticados internacionalmente.

— O INPI vem reduzindo de forma expressiva o backlog de análises, o que reforça a importância de medidas voltadas ao fortalecimento institucional do órgão. Ao ampliar sua capacidade operacional, é possível reduzir atrasos, aumentar a segurança jurídica e melhorar o ambiente de inovação sem a necessidade de estender períodos de proteção patentária.



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