Derrotados os revoltosos de Jacareacanga, JK decidiu que eles não seriam punidos e patrocinou um projeto de anistia no Congresso Nacional. Coube aos deputados governistas Manuel Novais (PR-BA), Fernando Ferrari (PTB-RS) e Vieira de Melo (PSD-BA) apresentá-lo, já em março.
O senador Kerginaldo Cavalcanti (PSP-RN) notou um comportamento curioso dos parlamentares naquele ambiente de polarização política:
— Vejo pela primeira vez minoria e maioria de braços dados, como que entoando hosanas [louvores] ao projeto de anistia.
A anistia de fato uniu governo e oposição. O senador governista Gomes de Oliveira (PTB-SC) discursou:
— Como pai de oficiais da FAB não envolvidos nos acontecimentos que findaram em Jacareacanga, sinto-me à vontade para defender a anistia aos oficiais e soldados implicados nesses lamentáveis fatos. A anistia não será um favor aos que por ela sejam beneficiados nem um desestímulo para os que se mantiveram fiéis à ordem legal, mas um gesto alto que visa apaziguar ânimos e congraçá-los no esforço para o bem comum, que é o bem da pátria.
Dando uma alfinetada em JK e ao mesmo tempo justificando a ação dos golpistas, o senador oposicionista Argemiro de Figueiredo (UDN-PB) afirmou que as classes militares foram tragadas pelo “clima de exaltação e revolta” que dominava o Brasil por causa dos “erros do governo”, dos “pecados da administração” e dos “processos da demagogia”. Em seguida, acrescentou:
— A meditação, o bom senso, a serenidade nem sempre subsistem ao clima das paixões. Não faltam os desesperados, aqueles que, julgando inúteis os processos normais de evolução e reforma, atiram-se ao golpe das soluções violentas, subvertendo a ordem jurídica. A anistia é necessária. Ela será um fator de concórdia e apaziguamento dos espíritos. Poderá até ser decisiva na recuperação da unidade das classes armadas, que são a segurança do regime e das instituições.
JK quis que os militares que tentaram derrubá-lo fossem anistiados por acreditar que, passando uma borracha no episódio, a polarização que dominava o mundo político e o meio militar arrefeceria. Dessa forma, acreditava o presidente, a paz voltaria e ele conseguiria governar sem grandes resistências.
— As cicatrizes da campanha eleitoral ainda estavam muito abertas e cumpria-me a tarefa de cicatrizá-las. Eu não podia nem queria transformá-los em mártires — explicou mais tarde JK.
A oposição, por sua vez, apoiou a anistia não apenas por ter afinidade ideológica com os amotinados, adversários do getulismo, mas também para evitar que o governo capitalizasse sozinho o discurso da conciliação.




