Nem sempre acordar depois de uma noite de sete ou oito horas significa despertar descansado. Para algumas pessoas, o dia começa com cansaço, dificuldade para sair da cama e uma sensação persistente de que o sono não foi suficiente.
Quando isso acontece de maneira recorrente, é importante considerar a possibilidade de que o problema esteja na qualidade do descanso. Interrupções durante a noite podem impedir que o organismo passe adequadamente pelas diferentes fases do sono.
De acordo com Paulo Henrique Silva, neurologista da Hapvida, o impacto costuma aparecer também durante o dia.
“Não devemos avaliar o sono apenas pela quantidade de horas. Uma pessoa pode dormir sete ou oito horas e ter várias interrupções ao longo da noite, algumas delas sem sequer perceber”, explica.
Ronco frequente pode ser um sinal
O ronco nem sempre indica doença. Ele ocorre devido à vibração dos tecidos das vias aéreas durante a passagem do ar e pode aparecer ocasionalmente.
A situação merece mais atenção quando o ronco acontece com frequência, é muito intenso ou vem acompanhado de pausas na respiração, engasgos e sensação de sufocamento.
A presença de sonolência durante o dia ou a percepção constante de que o sono não foi reparador também reforça a necessidade de avaliação.
Entenda a relação com a apneia
A apneia obstrutiva do sono provoca episódios repetidos de bloqueio das vias respiratórias. A cada interrupção, a entrada de ar é prejudicada e os níveis de oxigênio podem cair.
Para voltar a respirar normalmente, o cérebro provoca pequenos despertares. Na maioria das vezes, a pessoa não se recorda dessas interrupções.
“O resultado é um sono fragmentado, que pode não ser reparador mesmo quando houve um número aparentemente adequado de horas de descanso”, afirma Paulo Henrique.
O problema pode afetar coração e cérebro
A apneia não tratada pode ter consequências que vão além do sono. O distúrbio está associado a um aumento do risco de doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, incluindo infarto e AVC.
Também há relação com obesidade e outras condições de saúde. No campo cognitivo, a fragmentação do sono e as alterações recorrentes na oxigenação podem estar relacionadas a dificuldades de concentração e memória.
Pesquisas também investigam a associação entre distúrbios respiratórios do sono e doenças neurodegenerativas, incluindo Alzheimer.
“A apneia não deve ser vista apenas como uma questão de ronco ou de dormir mal”, destaca o neurologista.
Quem precisa ficar mais atento?
O risco de apneia aumenta em pessoas com excesso de peso, maior circunferência do pescoço, determinadas características anatômicas das vias respiratórias e com o avanço da idade.
Bebidas alcoólicas consumidas antes de dormir também podem favorecer a obstrução das vias aéreas.
Nas mulheres, o período após a menopausa representa uma fase de maior risco. No entanto, o especialista ressalta que a apneia pode atingir pessoas com diferentes perfis.
“Não devemos imaginar que exista um único perfil de paciente. Pessoas que não se encaixam naquela imagem clássica associada à apneia também podem apresentar o distúrbio”, afirma.
Crianças podem apresentar sintomas diferentes
O distúrbio também pode ocorrer durante a infância. Ronco habitual, respiração pela boca, sono agitado e pausas respiratórias observadas pelos pais são sinais que justificam avaliação.
Em vez da sonolência característica em muitos adultos, crianças podem apresentar irritabilidade, mudanças de comportamento e dificuldades de atenção.
“Roncar de forma habitual não deve ser automaticamente considerado uma característica normal da criança”, alerta Paulo Henrique.
Diagnóstico depende de avaliação médica
Uma noite ocasional de sono ruim não é motivo para preocupação. O alerta está na persistência dos sintomas.
Ronco recorrente, sonolência excessiva durante o dia, cansaço ao despertar, sensação de sono insuficiente e esquecimentos frequentes devem ser observados, principalmente quando aparecem em conjunto.
A investigação começa pela conversa com o médico, que avalia rotina, hábitos, sintomas noturnos e repercussões durante o dia. Informações de familiares ou parceiros podem ser importantes para identificar episódios que o paciente não percebe.
A polissonografia pode ser solicitada quando houver indicação. O exame monitora diferentes parâmetros enquanto a pessoa dorme e ajuda a identificar alterações como a apneia.
O tratamento depende da origem e da intensidade do distúrbio. Mudanças comportamentais, controle de fatores de risco, aparelhos que auxiliam a manutenção das vias aéreas abertas e dispositivos intraorais estão entre as possibilidades, conforme avaliação especializada.
Para o neurologista, o principal é não aceitar o cansaço constante como algo inevitável.
“Dormir bem é uma necessidade do organismo. Se a pessoa reserva tempo suficiente para o sono, mas continua apresentando ronco, sonolência diurna, sono não reparador ou esquecimentos, é importante procurar avaliação”, conclui.
Uma noite de sono saudável, portanto, não é apenas aquela que dura várias horas. É aquela em que o organismo consegue permanecer em descanso adequado e recuperar-se para o dia seguinte.







