Silvio Tini de Araújo é hoje o maior acionista do Grupo Pão de Açúcar, e o título vale menos do que parece. Em junho de 2026, ele e a Bonsucex chegaram a 25,795% do capital da varejista e passaram o clã mineiro Coelho Diniz, dono de 24,6%. A conquista veio pela porta dos fundos: dias antes, o GPA tirou do estatuto a poison pill, a cláusula que obrigaria quem passasse de 25% a comprar também as ações dos demais sócios. Sem a trava, Tini virou o maior dono sem pagar o preço que as regras antigas cobravam.
O que ele comprou foi um problema. O GPA carrega dívidas bilionárias, está em recuperação extrajudicial e viu suas ações perderem mais da metade do valor só em 2026. Há ainda uma ironia que o mercado não deixa passar: o novo maior acionista do Pão de Açúcar está proibido pela CVM, até 2029, de ocupar qualquer cargo de administrador em companhia aberta. Enquanto o pai tenta tirar do buraco uma varejista que não pode administrar, o filho, João Araújo, que comprou dele a Buritirama e a fez crescer quase dez vezes, senta no conselho de uma healthtech parceira da McLaren.
Quem é Silvio Tini
Aos 80 anos, Tini é fundador e presidente da Bonsucex Holding, criada em 1982 para concentrar suas participações em empresas listadas. A Forbes estima seu patrimônio em cerca de R$ 3,8 bilhões. Discreto, ele construiu fama de investidor ativista: compra fatias relevantes, ocupa assentos em conselhos e questiona a gestão.
A carteira atual e passada inclui alguns dos nomes mais conhecidos da Bolsa:
| Empresa | Participação de Tini e Bonsucex |
| GPA (Pão de Açúcar) | 25,8% do capital, maior acionista (jun/2026) |
| Alpargatas (Havaianas) | 12,26% do capital total |
| IRB Brasil | cerca de 5% |
| Gerdau | participação relevante |
| Banco Pan, Bombril, Paranapanema | posições históricas relevantes |
No GPA, além da fatia, ele já tem influência na governança. Em janeiro de 2026, um executivo da Bonsucex foi eleito para o conselho de administração da varejista, que hoje divide cadeiras entre o grupo de Tini, o Casino e os Coelho Diniz.
A punição da CVM
A trajetória de ativista tem um capítulo que pesa na reputação. Em julho de 2024, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) inabilitou Tini por cinco anos para exercer cargos de administrador ou conselheiro fiscal em companhias abertas.
O caso remonta a 2017, quando ele era conselheiro da Alpargatas e defendia a migração da empresa para o Novo Mercado. Segundo a CVM, antes do anúncio ao mercado, Tini repassou a informação a um operador da corretora que executava suas ordens e recomendou a compra de ações. A investigação começou com um alerta da Bradesco Corretora e foi sustentada por gravações das ligações. A migração, anunciada em abril de 2017, nunca se concretizou.
A defesa negou o uso de informação privilegiada e argumentou que a conversa tratava apenas de distorção nos preços das ações. Tini anunciou que recorreria ao Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN).
Não foi a primeira vez. Na dosimetria, a CVM levou em conta a reincidência: em 2012, ele já havia sido multado em R$ 500 mil por divulgar informações relevantes da Brasil Ecodiesel, onde era conselheiro, e em 2003 foi condenado por negociar ações da Paranapanema em período vedado, antes da divulgação do balanço.
Brigas com outros acionistas
O estilo combativo também gerou atritos dentro das empresas investidas. O caso mais longo foi na construtora Rossi, em recuperação judicial desde 2022, onde Tini se tornou o segundo maior acionista. A partir de 2024, os irmãos João Paulo e Renata Rossi acusaram o investidor e empresas ligadas a ele de ultrapassar juntos 25% do capital sem fazer a oferta pública exigida pelo estatuto, e questionaram a independência de conselheiros alinhados a ele.
A disputa se espalhou por cinco processos judiciais e sete arbitragens. Em dezembro de 2024, a câmara de arbitragem da B3 chegou a suspender cautelarmente os direitos políticos de Tini e de acionistas ligados a ele, decisão depois revertida. A briga só terminou em abril de 2026, com um acordo em que as partes renunciaram mutuamente às pretensões.
A disputa com o filho
A frente mais delicada, porém, é familiar. Tini trava nos tribunais uma disputa com o filho, o engenheiro João José Oliveira Araújo, de 44 anos, que comprou dele a Mineração Buritirama em 2018 e a transformou na base do Grupo Buritipar, com negócios em manganês, cobre, potássio e logística.
Até aqui, a Justiça de São Paulo negou os pedidos apresentados pelo pai, e recursos seguem em análise. O processo corre em segredo de Justiça. Pai e filho não se falam há anos, e as versões sobre a transferência da mineradora divergem: para Tini, foi uma antecipação de herança; para a defesa de João, uma compra, sem qualquer herança envolvida.
O próprio João resume sua posição: “Nunca recebi nada do meu pai, nem mesmo um real sequer emprestado”.
Fontes:
- Seu Dinheiro – Quem é o novo ‘dono do pedaço’ no Pão de Açúcar? (texto de referência)
- Brazil Journal – As gravações que condenaram Silvio Tini
- InvestNews – Acordo encerra disputa entre Rossi e Silvio Tini
- InvestNews – Tini indica conselheiro no GPA
- Visno Invest – Bonsucex atinge 12,2% de participação na Alpargatas
- Visno Invest – Bonsucex adquire participação de 5,045% no IRB
- Times Brasil – Quem é o herdeiro de Silvio Tini
- InfoMoney – De uma dívida de R$ 350 milhões ao bilhão






