A Direcional Engenharia, uma das construtoras mais conhecidas do segmento de habitação popular brasileiro, atravessa um momento de pressão no mercado de capitais. Com a cotação das ações em baixa, a companhia apresentou ao mercado um plano de recompra de seus próprios papéis negociados em bolsa.
De origem mineira e com forte atuação no programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), a construtora viu suas ações acumularem queda superior a 30% nos últimos 12 meses, considerando a cotação da última semana. Os papéis chegaram a se aproximar da mínima anual e, em 27 de setembro, fecharam cotados a R$ 9,70.
O cenário ocorre em meio às preocupações do mercado com as eleições, a situação fiscal brasileira e o endividamento interno e externo do país. Nesse ambiente, investidores tendem a observar com maior atenção companhias com portfólios diversificados, capazes de reduzir a exposição a um único segmento ou a políticas públicas específicas.
A movimentação das ações também produz reflexos sobre o patrimônio dos acionistas de referência da Direcional, entre eles Ricardo Valadares Gontijo e seu filho, Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo. Conforme a relação patrimonial apresentada pela Forbes Brasil em 2026 e a cotação da companhia em bolsa, a fortuna ligada à participação empresarial estaria próxima de R$ 1,5 bilhão.
A concentração de parcela relevante desse patrimônio em um mesmo ativo faz com que oscilações expressivas das ações tenham impacto direto sobre o valor patrimonial associado à família.
Da construção popular ao Minha Casa Minha Vida
Fundada em 1981, a Direcional Engenharia iniciou suas atividades com pequenos empreendimentos residenciais e obras públicas. Seu primeiro edifício possuía apenas 12 apartamentos e foi construído no bairro Salgado Filho, em Belo Horizonte.
A companhia ganhou outra dimensão com a expansão da habitação popular brasileira e, posteriormente, do programa Minha Casa Minha Vida. A partir dos anos 2000, especialmente durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva, a empresa ampliou significativamente sua participação nesse mercado.
Atualmente, a Direcional disputa espaço com grandes construtoras que também possuem forte presença no MCMV. Entre elas está a Pacaembu Construtora, de origem paulista, que apresenta números próximos quando comparados os metros quadrados construídos anualmente para o programa habitacional federal. A MRV, ligada ao empresário Rubens Menin e também originária de Minas Gerais, permanece como uma das principais companhias do setor de construção civil brasileiro.
Direcional também acumula disputas e questionamentos
Paralelamente ao crescimento da companhia, a trajetória da Direcional foi acompanhada por processos, reclamações de consumidores e episódios envolvendo órgãos públicos.
Em 2025, o Ministério Público Federal em Goiás apresentou medida envolvendo a Caixa Econômica Federal e a Direcional Engenharia relacionada ao Residencial Nelson Mandela V, empreendimento integrante do Minha Casa Minha Vida.
Segundo a apuração mencionada pelo MPF, teriam sido identificados “vícios construtivos”, incluindo problemas de empoçamento de água, falhas no sistema de vedação e cerâmicas danificadas ou com rachaduras. Diante das constatações técnicas, foram requeridas providências destinadas à correção dos problemas e à segurança dos moradores.
No relacionamento com consumidores, a empresa também reúne milhares de registros no Reclame Aqui. O volume ultrapassa 14 mil reclamações, segundo os dados mencionados, envolvendo temas como atrasos, reembolsos, cobranças, entrega de imóveis, problemas estruturais e outras divergências entre compradores e a construtora.
Questões trabalhistas e obras no Amazonas
Outro capítulo envolve fiscalizações e processos trabalhistas relacionados a obras da companhia no Amazonas.
O Ministério Público do Trabalho atuou em caso relacionado ao canteiro de obras do Parque Ponta Negra – Reserva das Águas. Segundo o histórico apresentado, houve condenação envolvendo indenização de R$ 500 mil por dano moral coletivo, além da imposição de obrigações relacionadas às condições de saúde e segurança do trabalho.
As fiscalizações sobre canteiros relacionados ao grupo remontariam a 2008, após um desmoronamento que resultou na morte de um trabalhador por asfixia. Entre 2008 e 2016, teriam sido registradas cinco denúncias envolvendo a construtora no Amazonas.
Também foram estabelecidas ao menos 38 obrigações referentes à saúde e à segurança dos trabalhadores, com previsão de multa diária em caso de descumprimento.
Posteriormente, em 2018, a Direcional firmou termo de ajustamento de conduta que previa indenização de R$ 100 mil destinada ao custeio de cursos profissionalizantes para estudantes, além de compromissos relacionados às condições de trabalho nos locais em que atuavam empresas contratadas.
O episódio da Fazenda Bella Aliança, no Acre
Ricardo Valadares Gontijo e Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo também foram citados em episódio relacionado à Fazenda Bella Aliança, localizada em Bujari, no Acre.
De acordo com denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal no Acre, trabalhadores teriam sido submetidos a condições consideradas degradantes. O relato apontava ausência de folgas e salários, assinatura de recibos de pagamento e condições precárias de alojamento e acesso à água.
Segundo a denúncia, trabalhadores permaneceriam em barracas de lona sobre chão de terra batida e utilizariam água proveniente de uma poça barrenta. Os administradores Mário Mariano e Elmo Clemente José Gomes também foram mencionados no caso, inclusive em relação a supostas dívidas atribuídas aos funcionários. Em 2012, porém, o caso foi julgado improcedente pela Justiça no Acre e encerrado.
O episódio do jatinho e a relação entre negócios e política
Outro episódio citado no histórico envolvendo Ricardo Valadares Gontijo diz respeito à utilização de uma aeronave particular por um prefeito em viagem relacionada a interesses imobiliários.
Segundo a narrativa atribuída à investigação, o Ministério Público questionou o oferecimento do voo por entender que o benefício poderia representar vantagem de elevado valor vinculada a interesses empresariais, tendo sido formulado pedido relacionado à responsabilização do agente público por improbidade administrativa.
Na aeronave estariam, além do prefeito, um procurador municipal, um lobista e Ricardo Gontijo. O encontro teria ocorrido em contexto relacionado a áreas consideradas estratégicas para novos empreendimentos imobiliários.
O episódio passou a integrar os questionamentos sobre a proximidade entre interesses empresariais e agentes públicos, especialmente diante da forte presença da Direcional em projetos relacionados a programas habitacionais financiados ou incentivados pelo poder público.
Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo e o patrimônio ligado à Direcional
O crescimento da Direcional transformou a companhia em um dos principais ativos relacionados ao patrimônio da família Gontijo.
Segundo os valores mencionados pela Forbes Brasil em 2026 e considerando a participação vinculada à companhia, o patrimônio associado a Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo estaria na casa de R$ 1,5 bilhão.
Ao mesmo tempo, a queda recente das ações demonstra como a valorização patrimonial dos acionistas está diretamente sujeita ao desempenho da empresa no mercado. A Direcional continua com presença relevante no setor de construção civil e mantém forte participação no Minha Casa Minha Vida. Essa relação com o programa habitacional federal foi importante para a expansão da companhia e permanece como uma das principais frentes de seus negócios.
Ao longo dessa trajetória, entretanto, crescimento empresarial, dependência do segmento habitacional popular, disputas judiciais, reclamações de consumidores e episódios investigados por órgãos públicos passaram a dividir espaço na história da companhia e de seus principais acionistas.
Assim, enquanto Ricardo Valadares Gontijo e Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo permanecem ligados a um patrimônio bilionário construído em torno da Direcional Engenharia, a empresa segue enfrentando o desafio de conciliar expansão, participação em programas públicos de habitação, concorrência crescente e os questionamentos jurídicos e reputacionais acumulados ao longo de sua trajetória.





